Afonso Cruz

Nasceu em julho de 1971, na Figueira da Foz e haveria, anos mais tarde, de viajar por mais de 60 países. Frequentou a Escola António Arroio, a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. Em 2008, publicou o seu primeiro romance, A Carne de Deus — Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites, ao qual se seguiria, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Em 2011, publicou Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho, Prémio Literário Maria Rosa Colaço) e A Contradição Humana (Caminho, prémio Autores SPA/RTP).

Em 2012, foi o autor português distinguido com o Prémio da União Europeia para a Literatura pelo livro A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010). Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara, 2012) foi considerado o Livro Português do Ano pela revista Time Out Lisboa e o Melhor Livro do Ano segundo os leitores do jornal Público. Foi eleito, pelo jornal Expresso, como um dos 40 talentos que vão dar que falar no futuro. Só em 2013, Afonso Cruz publicou Enciclopédia da Estória Universal — Arquivos de Dresner, O Livro do Ano, O Cultivo de Flores de Plástico e Para onde Vão os Guarda-chuvas (vencedor do Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa), todos publicados pela Alfaguara. Assim, Mas Sem Ser Assim, livro infantojuvenil ilustrado, foi também publicado em 2013, pela Caminho. Afonso Cruz foi o vencedor do Prémio Nacional de Ilustração 2014 pela obra Capital (Pato Lógico, 2014).

Assina, desde fevereiro de 2013, uma crónica mensal no Jornal de Letras, Artes e Ideias sob o título Paralaxe. Além de escrever, é ilustrador, realizador de filmes de animação e membro da banda The Soaked Lamb.

Percurso

No princípio era o desenho.

Foi pelo traço que Afonso Cruz iniciou a sua relação com o acto de criar. Desde cedo, desenhou de forma militante e na verdade nunca pensou ser escritor. Graças a esse exercício, acabou por ter o primeiro emprego a fazer desenhos animados e por volta de 2007 estreou-se como ilustrador num livro partilhado com Alice Vieira. A escrita veio mais tarde, embalada pelo gosto pela leitura, e começou a ser praticada no ambiente dos blogues e, muito de raspão, na redacção publicitária. Foi na internet que nasceu a Enciclopédia da Estória Universal. Na eterna luta entre trabalho e inspiração, Afonso Cruz não descortina vencedores. Por trás dos trabalhos mais inspirados haverá sempre muito esforço e muito trabalho invisível, mas há contextos mais inspiradores.

 

A noite, por exemplo, período do dia preferido pelo autor, também por razões práticas. Não há telefonemas para atender nem emails para responder. Nessa altura, a concentração é mais propícia à inspiração. E a rotina completa-se com as manhãs ao serviço do trabalho de secretariado e as tardes dedicadas à leitura, actividade essencial à escrita. A leitura é o combustível para Afonso Cruz escrever. Em relação ao futuro, o próprio não tem a certeza do que vai estar a criar daqui a dez anos. Prefere concentrar-se no presente e deixar correr o acaso, que também o levou a fazer aquilo que faz hoje em dia. Algo que os seus leitores, fruidores, ouvintes, decidirão se se pode apelidar de obra. Com O maiúsculo.

Viagens

Tudo começa com o cinema de animação. Que se tornou um trabalho e desse trabalho nasceu uma má relação. Ainda assim, foi nessa altura que se formou a vontade de viajar sozinho pelo mundo, sem máquina fotográfica a tiracolo. Tudo começa com o cinema de animação, que se tornou a fonte de financiamento dessas viagens. Desse deambular pelo mundo, muita coisa regressou com Afonso Cruz, até pelo carácter formador das viagens. A dada altura faz-se um gesto e leva-se as viagens, o passado, atrás.

 

Para além das possibilidades romanescas, o autor gosta de explorar o tema da teoria da viagem, do nomadismo e da sedentarização. E de viajar por causa dos livros, que despertam para povos e geografias. Aliás, quando se viaja sozinho, os livros são os melhores amigos do homem. E quando não se leva a tal máquina a tiracolo, passa-se muito tempo a escrever, que é a forma de registar o que se viu. A esse treino constante também se deve a relação de intimidade que mantém hoje com a escrita.